Inovação é algo que muda e que fica

Projeto Brincadeiras Brasileiras mostra que colocar o aluno como protagonista
do processo de ensino e aprendizagem pode trazer grandes resultados

Uma apaixonada pela educação. Assim pode ser definida a professora polivalente da EMEF Prof. Edemir Antonio Digiampietri, Patrícia Oliveira, de Sorocaba (SP). Com o projeto Brincadeiras Brasileiras, ela e a vice-diretora da unidade, Eliane Pimentel, tornaram-se vencedoras do Prêmio Crianças mais Saudáveis 2018, conseguindo um playground completo, um sistema self-service e outros equipamentos para que as crianças pudessem exercer plenamente o direito de brincar e se alimentar adequadamente.

Mas as mudanças não pararam por aí: os resultados gerados pelo projeto foram tão positivos que foi possível perceber mudanças em toda a rede de escolas de Sorocaba, que passaram a receber visitas frequentes de nutricionistas e a realização da primeira Semana da Obesidade no município, que contou com a participação dos gestores escolares. Além disso, vencer o Prêmio Crianças mais Saudáveis contribuiu com a visibilidade da escola Edemir Antonio Digiampietri e com o resgate da autoestima da comunidade de Vila Barão, localizado na periferia da cidade.

Veja abaixo a entrevista completa com a professora:

Fundação Nestlé: Como surgiu o projeto Brincadeiras Brasileiras?

Patrícia Oliveira: Eu estava seguindo a matriz curricular de Sorocaba e, no livro didático da aula de história, surgiu uma imagem de um indígena brincando de cama de gato (brincadeira feita com barbante). Um aluno me perguntou o que era essa brincadeira. Descobri que de 31 alunos, só dois tinham ouvido falar de cama de gato, mas não sabiam brincar. O projeto nasceu dessa aula, senti necessidade de fazer um resgate das brincadeiras tradicionais.

FN: Brincadeiras Brasileiras contempla quais áreas de conhecimento?

PO: O projeto contempla várias disciplinas, como língua portuguesa, envolvendo os gêneros textuais de entrevistas, receitas e instrucional; ciências com a pirâmide alimentar e hábitos saudáveis; história na formação do povo brasileiro e as origens dos brinquedos e brincadeiras; e matemática com o ensino frações e medidas por meio de receitas.

FN: Como os alunos reagiram ao resgate de brincadeiras tradicionais?

PO: Eles gostaram demais. Toda sexta-feira a gente saía da sala de aula e aprendia uma brincadeira nova, fazendo oficinas de confecção de brinquedos. Foi muito produtivo, eles desenvolveram a pesquisa, aprenderam sobre outros povos e a origem dos brinquedos.

FN: Você acha que a tecnologia também é importante na educação, que ela pode ajudar?

PO: Sim, claro. A tecnologia, se bem usada, em horários estabelecidos e com objetivos traz muitos benefícios para os alunos. Usamos o Youtube e o JustDance (jogo) para ensaiar a dança que apresentamos ao final do projeto, e os alunos também recorreram ao Youtube para saber como rodar pião. Também pesquisamos, nesta mesma plataforma, como confeccionar brinquedos recicláveis. A tecnologia está a favor da gente, nós utilizamos para desenvolver o projeto.

FN: Em sua opinião, quais são as inovações que o projeto possui?

PO: Protagonismo dos alunos no desenvolvimento do projeto, englobar as brincadeiras na escola, ensinar sobre os hábitos saudáveis, a confecção dos kits de brincadeiras entregue para os alunos, a reciclagem feita para confeccionar os brinquedos (piões feitos de DVD’s usados, petecas de sacolas plásticas, bonecas Abayomis de retalhos e balangandãs de jornal), o ensino de uma nova modalidade de esporte (badminton), uso da tecnologia para pesquisa e outras ações do projeto. Nós também utilizamos o método de sala de aula invertida (quando os estudantes realizam a pesquisa em casa para ser discutida em sala de aula). A gente pensa em inovação no uso de tecnologia, mas inovação é algo que muda e que fica, que faz fora da caixinha.

 

Kit de brincadeiras tradicionais confeccionados pelos pais dos alunos e entregues a outras turmas da escola

FN: Como outros professores podem trazer essas brincadeiras para a escola e torná-las interessantes para os alunos?

PO: Na hora do recreio os alunos não tinham atividades para fazer. Eles ficavam correndo, batendo card ou brigando. Depois que a gente ganhou o Prêmio, foram implantadas as melhorias e eles tiveram contato as brincadeiras tradicionais, eles tiveram a oportunidade de ampliar o repertório de brincadeiras. Eu acho que os professores de outras escolas podem fazer um recreio dirigido, usando essas atividades nos intervalos e horas livres.

 

Com as benfeitorias do Prêmio, foi adquirido um parque equipado com balanço, escorregador,
trepa-trepa, escalada de cordas, torre de pneus, ponte pênsil e tubo de bombeiros

FN: Como as famílias regiram ao projeto? Houve mudanças no comportamento dos alunos em suas casas?

PO: Sim, houve uma mudança no pensamento dos pais, que começaram a ter consciência que os filhos devem brincar e não somente utilizando dispositivos eletrônicos. Eles participaram desde o início do projeto, fizemos entrevistas com eles para conhecer suas brincadeiras de infância e, no dia das crianças, eles produziram 2.500 “cinco marias” (saquinhos de tecido com enchimento de areia, farinha, grãos de arroz ou feijão) para entregarem aos filhos.

FN: Você pôde perceber alguma mudança na conscientização ambiental dos alunos – visto que os brinquedos eram feitos de materiais recicláveis?

PO: Sim, percebi que eles davam mais valor aos brinquedos que eles faziam do que aos que eles tinham em suas casas. Eles tiveram outro olhar para as coisas que são consideradas lixo, que elas podem se tornar outra coisa. Tinham apego por esses brinquedos.

FN: Como foi colocar o aluno como protagonista do seu processo de ensino-aprendizagem, envolvendo-os na iniciativa?

PO: O projeto nasceu de um questionamento dos alunos, deu certo e foi um sucesso porque surgiu das crianças. Para isso é necessário ter uma escuta sensível e saber o que as crianças acham. Após terem feito as pesquisas sobre as brincadeiras, questionei qual delas eles gostariam de aprender, e eles escolheram brincadeiras indígenas como peteca e cama-de-gato; portuguesas como pião, bolinha de gude e cinco marias e africanas como balangandã e boneca Abayomi.
Também foram os alunos que tiveram a ideia de criar a oficina de brinquedos, entregando caixas com pião de madeira, bola de gude, cama de gato e cinco marias para os outros estudantes, partindo deles também a apresentação final. O projeto era deles e era a paixão deles.

FN: Trazer esse momento lúdico para a escola, com brincadeiras de outros povos, beneficiou os alunos de qual maneira?

PO: Eles aprenderam sobre outras culturas e etnias, sentiram-se pertencentes a escola, ganharam autoestima, pararam de brigar e correr no recreio e também aprenderam a aprender, pesquisando para buscar conhecimento. Outro benefício foi o aprender a ser, pois surgiu um entendimento de que o parque (que foi adquirido como benfeitoria do Prêmio Crianças mais Saudáveis), era algo que deixavam para a comunidade, criando consciência que são sujeitos de transformação social e saindo da escola cidadãos melhores. Porém, o principal ganho foi a valorização da infância e da cultura do brincar, pois o brincar é valorizado até a educação Infantil, no ensino fundamental “tem que ser escolarizado, tem que estudar”. Fico muito feliz que a gente tenha um horário específico para cada turma ir ao parque.

Mudanças e desafios

FN: Quais foram os frutos pessoais e profissionais que o projeto trouxe para você?

PO: Eu já era uma professora apaixonada pela profissão, mas hoje em dia fiquei mais apaixonada ainda. Aprendi a origem das brincadeiras tradicionais, a como trabalhar em equipe, valorizar a escuta das crianças e senti a necessidade de estudar mais.

Patrícia Oliveira e a vice-diretora da escola Eliane Pimentel durante
a cerimônia de premiação e formação em São Paulo, em 2018.

FN: Você percebeu mudanças na rede de escolas de Sorocaba? Pode contar um pouco mais sobre isso?

PO: Percebi mudanças. Vejo a Secretaria da Educação mais preocupada com as questões alimentares, tendo feito o primeiro Seminário de Obesidade Infantil e trazendo nutricionistas para dar palestras aos professores das escolas. Fui convidada duas vezes para ir a câmara e falar sobre meu projeto, e acho que essas pequenas palestras interferiram de modo geral na cidade.

FN: Quais são os principais desafios para o professor que deseja trabalhar com projetos dessa natureza?

PO: O primeiro desafio é ele ter a consciência que a criança precisa brincar, que ele deve tirar uns minutinhos da sua aula e sair lá fora, levando os alunos. Se deixar objetivos determinados e combinar com os alunos o motivo de eles estarem saindo da sala, vai dar tudo certo. O segundo desafio é conscientizar os outros professores sobre a importância do brincar e envolvê-los no projeto.

Para saber mais sobre o projeto Brincadeiras Brasileiras, acesse o case: https://criancasmaissaudaveis.com.br/brincadeiras-brasileiras/.