A educação pelo esporte

Idealizadora do projeto Vida Saudável sem barreiras mostra como envolver alunos,
professores e comunidade estendida em atividades físicas

A professora de educação física e atual gestora escolar, Maria Sandra Leone, acredita tanto na importância do esporte para a educação, que inscreveu o projeto Vida Saudável sem Barreiras, realizado em parceria com a coordenadora Kassyenne Dias Gila, no Prêmio Crianças mais Saudáveis 2018, o qual foi contemplado.
Com o valor de R$35 mil oriundos da iniciativa da Fundação Nestlé Brasil, foi construída uma quadra esportiva na escola, oferecendo um espaço para os alunos fazerem algo que é tão caro durante a infância: brincar e se exercitar.

Além de promover a saúde e desenvolver as habilidades socioemocionais dos estudantes, o projeto foi expandido para a comunidade do entorno, que agora pode usufruir de acompanhamentos nutricionais, aulas de zumba e treinamento funcional na própria instituição, reforçando os vínculos com as famílias e moradores do bairro Iguape, onde a escola Municipal do Iguape está localizada.

Confira a entrevista com a idealizadora na íntegra.

Fundação Nestlé: Como surgiu o projeto Vida Saudável sem barreiras?
Maria Sandra: O projeto Vida Saudável sem Barreiras surgiu de uma necessidade da escola de ter a parceria com a comunidade, pois é difícil trazer a comunidade para a escola, principalmente as famílias, inclusive em reuniões escolares. Além disso, a instituição não tinha um espaço adequado para os alunos praticarem atividades físicas. Eles ficavam na sala até o lanche ser servido e voltavam para a sala de aula, não havia no bairro um espaço para brincar.
O projeto não contribui somente para os alunos da escola, mas também para a comunidade do entorno e professores, pois puderam se sensibilizar com a temática da alimentação saudável. Não adianta os professores ensinarem o que não acreditam, por isso, fizemos primeiro a sensibilização com eles.

FN: Quais áreas de conhecimento o projeto contempla?
MS: Contempla diversas áreas como português e matemática, com a produção das receitas, educação física e geografia, com os estudos sobre a região dos alimentos.

Alunos produzindo receitas na escola

FN: O que é educar por meio do esporte e quais ensinamentos o esporte pode proporcionar?
MS: A educação pelo esporte é fundamental, é como se fosse um atrativo. Pelo esporte o aluno aprende disciplina, compreende regras, a importância da pontualidade e organização, cooperação e respeito. A educação pelo esporte é muito válida, inclusive na parte motora.

FN: Fale sobre a ideia de incluir a comunidade do entorno nas atividades físicas e qual é o papel dessas pessoas no projeto.
MS: Nós trouxemos esse público para a escola porque a comunidade são os familiares dos alunos, são eles que preparam o almoço e os lanches para os estudantes no dia a dia. Portanto, as famílias também devem estar sensibilizadas. Então, fizemos um trabalho individual de avaliação nutricional e atendimento com este público, uma vez por mês, para aproximadamente 100 pessoas. Também trouxemos a comunidade para a escola com o treinamento funcional e a zumba, duas vezes por semana.

FN: No projeto, os alunos com baixa autoestima eram encaminhados para um sistema de rede de atenção com acolhimento de psicóloga e nutricionista. Conte mais sobre esse processo.
MS: Podíamos observar, no momento da avaliação nutricional, os alunos e pessoas da comunidade que demonstravam baixa autoestima. A partir daí, o público era encaminhado para a orientadora educacional da escola, que tem formação em psicologia, onde eram acolhidos. Além disso, também faziam atividades físicas e davam continuidade ao atendimento nutricional. Dessa forma, os alunos e a comunidade melhoravam a autoestima, inclusive, participando mais de atividades de dança, ficando mais desinibidos. Com essa equipe, composta por professor de educação física, nutricionista e orientadora educacional, nós pudemos contribuir para elevar a autoestima tanto dos alunos como de familiares e comunidade.

FN: Como ocorreu a capacitação desta equipe multidisciplinar?
MS: A capacitação da equipe multidisciplinar aconteceu de forma bem interessante, tudo que nós fizemos nas atividades da formação (os ganhadores do Prêmio participam de uma formação inicial de 12 horas em São Paulo) foi aplicado aqui na escola. Dessa forma, os professores e toda a comunidade escolar ficaram envolvidos, e antes de aplicarmos com os alunos as atividades de alimentação saudável e esportivas, aplicamos com os professores, para que sensibilizados, pudessem executar as atividades com mais empenho e desenvoltura, acreditando na proposta.

FN: Como a comunidade enxergou a escola a partir do momento em que a instituição começou a oferecer atividades físicas?
MS: A instituição foi mais respeitada. A escola foi vista como a extensão das casas das pessoas, os pais vão lá para fazer atividade física e receber orientações sobre alimentação saudável, e os filhos vão lá para estudar e fazer atividade física. Até hoje a comunidade fala do projeto.

 

FN: Fale um pouco sobre a proposta multiesportiva que se adequava aos interesses, capacidades e limitações dos participantes. Como foi possível realizar essa personalização?
MS: Durante a construção da quadra, realizamos a avaliação física com os alunos, pois antes eles não tinham a prática da atividade física e costumavam ficar dentro de casa, já que não havia espaços disponíveis na comunidade. Trabalhamos com atividades pré-desportivas com regras adaptadas, perpassando pelo futsal, vôlei, handball, basquete. Com isso, os alunos que não têm as habilidades podem praticar a mesma atividade dos estudantes que têm.

 

Alunos utilizando a quadra adquirida por meio do Prêmio Crianças mais Saudáveis

FN: Você acha que essa proposta personalizada teve um impacto no sucesso do projeto?
MS: Sim, porque todos os alunos participam. Vemos essa questão ainda hoje na prática da educação física escolar, que os alunos que têm habilidade participam e os que não têm ficam de fora, só olhando. Com essa adaptação, todos acabam participando, por exemplo: o futsal tem as regras oficiais, mas nós trabalhamos com o fut par, no qual os praticantes participam em duplas, de mão dadas. Outra adaptação é o futebol de quatro gols, no qual há mais duas traves para a bola passar.

FN: Você desdobrou as metas gerais da atividade física em pequenos desafios. Qual foi o resultado dessa estratégia?
MS: Trabalhamos com os comportamentos saudáveis estimulados pela Fundação Nestlé; cada mês trabalhamos com um, até chegar na atividade física. Em dezembro de 2018, fizemos um festival e trabalhamos com os jogos pré-desportivos. Neste ano (2019), trabalhamos com modalidades, e quando termina o trimestre ocorre um festival esportivo, motivando os alunos.

FN: Quais foram os ganhos que o projeto trouxe para você, pessoalmente?
MS: Na escola eu pude me envolver mais com os professores. Para o profissional, também foi muito importante, pois hoje eu sou diretora da maior escola de Ilhéus. Fui mais observada e estou nessa posição, outras escolas também me solicitaram para projetos, inclusive professores pediram ajuda nessa questão. Também, pretendo fazer um mestrado em educação com a temática de políticas públicas em relação a escola-comunidade.

Maria Sandra Leone e Kassyenne Dias Gila, durante
a cerimônia de premiação e formação do Prêmio 2018

FN: Quais mudanças você percebeu na atitude dos seus alunos, com relação a vida saudável e em geral?
MS: Os familiares relatam mudanças na alimentação dos filhos e os alunos já comem merendas escolares mais saudáveis. A escola tem mais preocupação em fazer merenda saudável e, inclusive, os professores também melhoraram sua alimentação, servindo de exemplo para os alunos.

FN: Em sua opinião, quais inovações seu projeto possui?
MS: Trazer a comunidade para a escola, isso é inovador, pois as pessoas relatam muita dificuldade de realizar essa ação. Buscar parcerias para a escola, e não esperar somente pelo poder colaborar.

FN: Por último, qual dica você daria para o professor que deseja trabalhar com projetos?
MS: Para realizar um projeto, não precisa ter uma ideia tão especial, podem ser coisas simples do dia a dia, que o professor faça em sala de aula. O pensador Felipe Souza fala que o compromisso de uma causa pode ter um grande impacto na vida de um indivíduo.

Para saber mais acesse: https://criancasmaissaudaveis.com.br/vencedor-de-2018-projeto-vida-saudavel-sem-barreiras/.